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BLOG DO MENEZES
 


A OUTRA INGLATERRA, O MUNDO DE IMOGEN E O OUTRO MUNDO DE JONATHAN COE

 

As mulheres dão a Coe o tom da narrativa: Rosamond; doutora May; tia Ivy; Beatrix; Gill e suas filhas; Thea; Imogen, Rebecca; Ruth; quase todas desajustadas e em desconforto, vivendo relações conflituosas em família (principalmente com as mães) e fora dela. Mulheres que buscam o que nenhum homem pode oferecer, ainda que Beatrix e Thea tivessem tentado. As personagens que estão nos dois extremos do livro, Rosamond e Imogen, parecem menos vulneráveis, mais estáveis, mesmo com tudo o que passaram, o que não impede que tenham um fim triste e injusto. No caso da protagonista, o fim foi premeditado, mas Imogen ?

 

A última foto. A 20ª. A festa do meu 50º aniversário.

...

Você também estava lá, Imogen. Foi minha grande vitória. Convenci sua família a deixá-la vir. E aqui está você, em primeiro plano na foto.

...

A outra pessoa na foto é Gill.

...

Tenho que descrever, descrever. Só que estou ficando cansada. A história mais ou menos acabou. Apenas mais uma ou duas coisas para lhe dizer.

...

Outro gole de uísque, talvez. Ainda tem mais da metade da garrafa.

...

Talvez eu é que esteja tempo demais vivendo aqui, totalmente só... Mais recentemente, sim, tem a dra. May – ela vem pelo menos duas vezes por semana. Falando nisso, ela vem amanhã e vai ter uma surpresa, desconfio, uma desagradável surpresa. Preciso me lembrar de deixar a porta destrancada para ela...

 

As mulheres de A chuva antes de cair estão longe da realização plena, que parece mesmo não existir, e não apenas no livro de Coe. Beatrix e a própria Rosamond se saem relativamente bem no trabalho, prêmio de consolação para duas vidas devastadas por memórias de perdas, paixões erradas, amores fugazes, violência e abandono em família. Ruth é talentosa e realizada no trabalho, mas vive quase uma vida ao lado de Rosamond sabendo que Rebecca foi o grande amor de sua companheira. Rebecca acaba por constituir família tempos depois daquele verão que passaram juntas com Imogen. Thea jamais se recuperou do que lhe aconteceu e do que ela mesma causou à filha. Imogen vive com outra família, parece feliz, tem um namorado e, praticamente, não conhece a mãe.

 

 

 

The rain before it falls foi publicado em 2007, dez anos depois de The House of sleep (A casa do sono, que saiu no Brasil só em 2007, pela Record). Se não fosse A casa do sono, A chuva antes de cair poderia inaugurar uma mudança importante na ficção de Jonathan Coe. Nos dois livros, o autor faz uma opção pela investigação de vidas privadas em que seus personagens se movem em uma Inglaterra neutra dentro da narrativa, onde os acontecimentos de fora não interferem dentro dos romances. Em A chuva antes de cair, a escritura de Coe é ainda mais privada (e pequena), concentrada nas memórias de uma tia que fala para a neta da prima e amiga que ela nunca esqueceu e que sempre ajudou sem obter nenhum tipo de reconhecimento. Rosamond era a arquivista dedicada de uma família que não existia mais, que confia à sobrinha Gill, assombrada por memórias do passado, a tarefa de reunir pessoas em torno do seu legado estranho e surpreendente.  

 

 

 

 

Jonathan Coe, é bom lembrar, é o autor de O legado da família Winshaw (What a Carve Up!, 94) e dos livros gêmeos Bem-vindo ao clube (The Rotters' Club, 2001) e O círculo fechado (The Closed Circle, 2004), que traçam painéis políticos e sociais da Inglaterra dos anos 70, 80 e 90, por onde se movem os seus personagens, muito diferentes de A chuva antes de cair.

 

O legado da família Winshaw fez uma anatomia do thatcherismo influente e corrupto disfarçado nas tramas de uma família decadente. Bem-vindo ao clube voltou aos anos 70 para falar das promessas não satisfeitas do trabalhismo inglês, greves, demissões, passeatas, vida dura, falta de emprego, ataques à bomba do IRA e de adolescentes que estavam tentando se encontrar, resolver problemas em família e se livrar de todos eles com alguma consciência. O círculo fechado trouxe de volta os protagonistas de Bem-vindo ao clube nos anos 90, quando quase tudo na Inglaterra não apresentava novidades e indicava as mesmas vidas normais, monótonas e pequenas de A casa do sono e de A chuva antes de cair.

 

Jonathan Coe nasceu em 61, em Birmingham, e como todos os melhores escritores da sua geração, tenta explicar uma Inglaterra imaginária ou se prende ao país que tem nas histórias familiares e nos painéis sociais a sua verdadeira grandeza. Coe declarou em várias entrevistas que A chuva antes de cair foi influenciado pelas conversas que mantém constantemente com os seus pais para resgatar histórias em família. Foi a mesma coisa que tia Rosamond deixou para Imogen e a sobrinha Gill. Por que Imogen ?

 

Os dois cachorros, a vida de Imogen, a carta de Thea no final do livro, a poesia do título e todo o resto que se encaixa genialmente em A chuva antes de cair, só lendo o livro. Vale qualquer coisa.     

 



Escrito por sergio menezes às 02h07
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DOIS CACHORROS, IMOGEN E A CHUVA ANTES DE CAIR

 

Uma mulher de 73 anos vai morrer em um lugarejo perto de Birmingham. Sozinha, tem ao seu lado um microfone, um gravador antigo, um toca-discos, uma garrafa de malte escocês, centenas de fotografias e um frasco de Diazepan. Grava quatro fitas-cassete de 90 minutos, separa 20 fotos, deixa instruções sobre a sua herança, ouve música, bebe, provavelmente toma o que restava do frasco e espera placidamente a morte chegar. Foi encontrada com um disco ainda girando no prato e o botão “gravar” do cassete ligado.

 

Rosamond gravou, cronologicamente, a história de cada uma das fotos que escolheu. Lugares, personagens, detalhes, o que veio antes e depois daqueles instantâneos congelados, mas vívidos em sua memória, são minuciosamente esmiuçados nos quatro cassetes. O último, o de número quatro, estava no gravador quando ela se foi. Era a única identificação nas fitas, números de um a quatro, sem nenhuma orientação sobre o conteúdo de cada uma delas.

 

Eu espero, Imogen, que seja você a pessoa a escutar estas palavras. Temo não poder ter certeza disso, porque você parece ter desaparecido.

...

Há algo mais que devo a você: algo muito mais precioso; algo que, na minha opinião, não tem preço, no mais literal sentido dessa expressão. O que eu quero que você tenha, Imogen, acima de tudo, é uma noção da sua própria história; uma noção sobre de onde você veio, e sobre as forças que fizeram você existir.

...

São centenas de fotografias que eu poderia escolher, Imogen. Centenas e centenas, de volta ao tempo da Guerra e além.

...

No fim, fiquei com 20. Vinte parece um número de que posso dar conta, de alguma forma. Vinte cenas da minha vida, basicamente, porque acho que é isso o que me proponho a lhe contar: a história da minha vida – até o momento em que você a deixou, tão pouco tempo depois de ter aparecido nela pela primeira vez.

...

 

Imogen é a filha de Thea, neta de Beatrix – a prima e melhor amiga de Rosamond. Era uma adolescente quando as fitas foram gravadas, cega desde os três anos, vítima de mais uma tragédia em família. Imogen morou com Rosamond e Rebecca quando tinha de cinco para seis anos – os melhores anos da vida de Rosamond, com a única mulher que amou de verdade.

 

A garota não chegou a ouvir as fitas, ver as fotos ou receber a sua parte na herança. É outra herdeira de Rosamond, a sobrinha Gill, que volta a Shropshire para entender o que tinha acontecido com a tia e descobre, entre outras coisas, que as fitas e as fotos deveriam ser entregues por ela para Imogen, que ninguém sabia onde encontrar. 

 

 

 

As fitas deixadas pela tia antes de morrer, ouvidas por Gill e suas filhas Catharine e Elizabeth, são a matéria ficcional do novo livro de Jonathan Coe, A chuva antes de cair (Record, 2009), tradução de Christian Schwartz. – que começou acertando na sutil transposição do título original, The rain before it falls. É mais um grande livro de Coe, emocionante, virtuoso na utilização dos recursos literários e brilhante como sempre. O que se lê é a “voz de Rosamond” antes de morrer, ouvida nas fitas por Gill e suas filhas, para uma menina que ficou cega. Coe cria e reconstitui cada uma das fotografias e deixa que a memória de sua narradora faça o resto.

 

 

 

 

 



Escrito por sergio menezes às 01h51
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